in

“Estupro culposo” caso Mariana Ferrer termina com sentença inédita e internet indignada

O caso Mariana Ferrer ganhou mais um capítulo na manhã desta terça-feira, 3 de março, depois que o The Intercept Brasil teve acesso ao crime legal que absolveu André de Camargo Aranh de ser acusado de estupro em setembro. Um empresário foi acusado de estuprar um promotor de 23 anos em um evento de 2018. O procurador da República, Thiago Carriço de Oliveira, considerou "culpado" o estupro, crime não previsto na legislação brasileira. Assim, Aranha pôde absolver o caso. Além da decisão, o site teve acesso a uma gravação do julgamento em que o advogado de Aranha, Cláudio Gastão da Rosa Filho, humilhou a vítima. A notícia chocou os internautas, que voltaram a fazer do caso um dos assuntos mais comentados no Twitter com hashtags como "#justicapormariferrer", "estupro culpado", "vítima", "humilhado" e "juiz".

Inicialmente, Aranha foi condenado pelo promotor Alexandre Piazza por estuprar uma pessoa vulnerável quando a vítima está sob a influência de drogas ou álcool e não pode consentir ou se defender. Ele também solicitou a prisão preventiva do réu, o que foi aceito pelo tribunal, mas foi anulado em segunda instância pela defesa de Aranha. A sentença foi mudada depois que Piazza deixou o caso para tratar de outra acusação, segundo o Ministério Público. Thiago Carriço de Oliveira, que tratou do caso, considerou o crime uma "violação culposa". Segundo Oliveira, o empresário não teve como saber que a jovem era incapaz de consentir com o ato sexual e, portanto, não tinha "intenção" de estuprar. O juiz Rudson Marcos, da Terceira Vara Criminal de Florianópolis, concordou com a tese de Oliveira e absolveu Aranha.

No filme obtido pelo "The Intercept Brasil", o advogado de defesa mostra fotos de Mariana antes do julgamento para argumentar que o sindicato estava de acordo. Gastão classifica essas imagens como "ginecológicas" e diz que "ele nunca teria tido uma filha ao seu nível" depois que a vítima o acusou de bullying. “Também peço a Deus que meu filho não encontre uma mulher como você”, diz o advogado de Aranha. Mariana fica chocada com as declarações. Gastão continua a acusar a jovem de "showzinho". "Não adianta vir com um grito falso escondido e aquele lábio de crocodilo", ela repreende. – Excelência, rogo-lhe respeito, até os réus não são tratados como eu, pelo amor de Deus, gente. O que é isso? ", Pergunta à jovem após a intervenção do juiz e diz que Mariana pode interromper o julgamento para" beber um pouco de água ". “Mesmo os acusados ​​de homicídio não são tratados como eu”, acrescenta.

Entenda o caso


A influenciadora Mariana Ferrer tinha 20 anos quando se tornou embaixadora de um requintado beach club em Florianópolis, o Cafe de La Musique. Um ano depois, a jovem reuniu coragem para denunciar um estupro dentro do estabelecimento. Segundo Mariana, em 15 de dezembro de 2018, ela foi dopada e violentada por um empresário, que seria amigo dos proprietários do local. O caso todo veio à tona nas redes sociais da própria Mariana, que, em busca de justiça, resolveu tornar a situação pública. “Não é nada fácil ter que vir aqui relatar isso. Minha virgindade foi roubada de mim junto com meus sonhos. Fui dopada e estuprada por um estranho em um beach club dito ‘seguro e bem conceituado’ da cidade”, disse ela, ao falar sobre o assunto pela primeira vez. Mariana utilizou a rede social para expor detalhes do ocorrido na noite de dezembro. Vídeos em que aparece se apoiando nas paredes, sem conseguir andar sozinha, prints pedindo socorro a amigas que estavam no local, além da foto do vestido que usava na noite todo ensanguentado.

Segundo relato de Marie Claire, exames feitos por Mariana na época confirmaram o estupro. O sêmen encontrado na calcinha de uma jovem virgem pertencia a André de Camargo Aranh, 43 anos, poderoso empresário da indústria do futebol que se tornou amigo de futebolistas famosos. Desde a denúncia de Mariana, Ferrer tem promovido uma verdadeira cruzada contra seus captores em várias plataformas. A hashtag #justicapormariferrer contém centenas de milhares de comentários questionando o papel da Justiça e já atingiu os mais diversos perfis, como a cantora Ludmila, a atriz Débora Nascimento, e a influente Débora Aladim. “O caso Mari Ferrer é um fracasso para todas as mulheres. Ela foi estuprada, ela tem um vídeo, ela está conversando, ela tem um exame que mostrou que ela tinha a semente do estuprador dentro dela e que ela foi drogada para se manter inconsciente. Ser mulher no Brasil é ter uma meta nas costas ”, escreveu.